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15/04/2019 00:00

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Combater a violência, ao invés de estimulá-la, é a única e melhor saída possível





Em artigo intitulado Oitenta tiros numa nação, publicado na Folha de SP deste domingo, 14 de abril de 2019, a jornalista, socióloga e advogada Flávia Lima faz uma alentada análise sobre os custos da violência e seus impactos para a sociedade brasileira.

Num momento em que todas as atenções são chamadas a se concentrarem na Reforma da Previdência e nos efeitos que ela pode trazer para o equilíbrio fiscal, Flávia destaca outro aspecto tão ou mais importante. Segundo seu artigo, o combate à violência e à letalidade policial pode redundar em um significativo benefício econômico tal e qual a União alardeia alcançar com a dita Reforma. Além disso, e mais importante, pode reduzir a situação de conflagração à que a sociedade brasileira está posta.

Daniel Cerqueira, do IPEA, é citado por Flavia em estudo que aponta que o custo da violência chegou a 6% do PIB (Produto Interno Bruto) apenas em 2016, ou o equivalente a R$ 372 bilhões — valores da época.

Se somarmos a esses números os custos das mortes e sequelas provocadas pelo trânsito brasileiro, a dívida que a sociedade suporta atinge a casa dos R$ 500 bilhões por ano. Sim, porque como aponta relatório de 2016 da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), o custo estimado para a sociedade no ano foi de R$ 130 bilhões, por conta das 700 mil vítimas de acidentes, das quais 24 mil mortes.

A propalada Reforma da Previdência, assim estima o ministro Paulo Guedes, promete uma economia total de R$ 1,1 trilhão em dez anos. Logo, cuidar da violência poderia trazer, em um único ano, metade da economia que o ministro estima alcançar em dez.

Nesta comparação podemos concluir singelamente que cuidar da violência pode trazer não só benefícios financeiros ao estado brasileiro, como ainda preservar milhares de vidas.

O discurso do Estado, no entanto, é controverso: enquanto estima com uma única Reforma “salvar” recursos para os cofres públicos, ao mesmo tempo produz ações que certamente causarão impactos capazes de drenar muito mais recursos além de ceifar muito mais vidas. Além de aumentar a sensação de beligerância que, a história ensina, provocará mais violência que, por sua vez, redundará em mais mortes e mais gastos públicos, inaugurando um perigoso e malévolo círculo vicioso...

As ações a que referimos vão desde a liberação do uso de armas de fogo ao esgarçamento das regras no trânsito, estas essenciais para evitar acidentes e mortes provocadas por motoristas irresponsáveis, muitos dos quais usam seus carros como verdadeiras armas.

Liberar o uso de revólveres e reduzir radares nas estradas, além de dobrar o limite de pontos para o motorista cometer infrações ao volante, têm o mesmo sentido, e são gestos que acabarão por produzir o mesmo e trágico resultado: o aumento da sensação de impunidade, com o fortalecimento de um sentimento similar a uma “licença para matar”.

Separar as duas coisas – armas e trânsito, sem perceber que ambas produzem o mesmo e devastador efeito, é altamente perturbador. Uma sociedade que não percebe que benefícios individuais podem produzir altos prejuízos sociais é uma sociedade que dá as costas para o futuro.



Comentários

Eduardo A Vasconcellos - 29/08/2019 14:47:34
Excelente texto. A junção do apoio às armas com a eliminação dos radares produz uma dupla tétrica, anti-civilizatória, como marca indelével do atual governo federal, que tem como característica a idolatria da violência como forma de resolver conflitos.

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