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27/03/2019 00:00

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Cidades inviáveis



Rogério Belda, um dos fundadores da ANTP, lembra que o dilema que o transporte público enfrenta está em descobrir  como diminuir as viagens dos que viajam muito, considerando, em prioridade, as pessoas de renda baixa.

Belda ressalta que com relação aos mais favorecidos, é preciso introduzir uma mudança na forma de viajar, “porque como é hoje, é extremamente predatória, não só em termos ambientais, como também em termos urbanísticos”.

Belda toca no eterno problema que os governantes insistem em ignorar: é impossível alcançar uma cidade saudável e equilibrada onde todos andem de carro. Sem a existência de um sistema de transporte coletivo que funcione com regularidade e modicidade tarifária, com conforto e integrado em seus vários modos, a cidade perde competitividade e qualidade de vida.

Dados do Sistema de Mobilidade Urbana – Simob da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, um rico e dinâmico acervo de dados sobre a mobilidade urbana no Brasil, demonstram que quem utiliza transporte coletivo nas cidades brasileiras percorre uma distância maior e, por conseguinte, perde mais tempo para se deslocar diariamente no percurso casa-trabalho.

O Simob coleta dados de cidades com mais de 60 mil habitantes, que juntas, somam 133 milhões de moradores, cerca de 2/3 da população brasileira. É um retrato fidedigno da realidade de nossas agruras, mas um rico material que pode orientar o planejamento e a tomada de decisões de gestores e operadores de transporte.

Segundo o levantamento, esse contingente de pessoas realizou 65,3 bilhões de viagens em 2016, quando classificado apenas o modo principal de locomoção (ônibus, trem, metrô, a pé, bicicleta ou moto).

Dessas 65,3 bilhões viagens realizadas em 2016, 28 bilhões, ou 43% do total, foram feitas a pé e por bicicleta. Na sequência, aparecem as viagens feitas pelo transporte individual motorizado – carros e motos (19,0 bilhões de viagens, 29%) e, por fim, as realizadas pelo transporte coletivo (18,3 bilhões de viagens, 28%).

Apesar de o transporte coletivo representar um número menor de viagens, é nesta forma de deslocamento que as pessoas percorrem as maiores distâncias e perdem mais tempo, principalmente nas cidades maiores.

Nos municípios com mais de um milhão de habitantes, o transporte coletivo é responsável pela maior distância percorrida por seus habitantes em seus deslocamentos diários: 8,1 km por habitante por dia, contra 4,5 km/hab/dia quando o modo escolhido é o transporte individual (carros e motos).

Além de percorrerem maiores distâncias, os usuários do transporte coletivo também perdem mais tempo nos deslocamentos do dia a dia.

O Simob calcula que, no total, usando o ano de 2016 como referência, foram dispendidas 29,9 bilhões de horas nos deslocamentos feitos por todas as pessoas. Aquelas que usaram o transporte coletivo respondem por 45% desse total de horas, enquanto as que se utilizaram do automóvel gastaram quase a metade desse tempo, 23%.

Para o consultor da ANTP e responsável pela montagem do banco de dados, Eduardo Vasconcelos, a conclusão é que o usuário do transporte coletivo acaba sendo o mais penalizado nas grandes cidades.

O Sistema de Mobilidade Urbana – Simob foi desenvolvido nos anos 2004 e 2005 pela ANTP, com apoio do BNDES.

Estruturado para coletar informações sobre a mobilidade das cidades brasileiras, tornou-se uma referência para todos os que estudam o tema no país.

São números que indicam a necessidade de diferentes olhares em relação às políticas de mobilidade urbana em função do porte do município. 

O transporte coletivo representa menos de 1/3 do total das viagens, mas em contrapartida responde pela maior distância percorrida e por 45% do total de tempo gasto na mobilidade; o transporte individual representa quase o mesmo total de viagens que o transporte coletivo, mas percorre distâncias bem menores e gasta a metade do tempo.

A conclusão é visível: o usuário do transporte coletivo é o mais penalizado nas grandes cidades, apesar de ser bem menos responsável pelo uso dos espaços e pelas consequências negativas causadas pelo excesso de veículos, como acidentes e atropelamentos, além da poluição e seus danos à saúde pública.

Uma cidade sem transporte coletivo de qualidade não pode produzir no máximo de sua capacidade, e desta forma se torna incapaz de prover benefícios sociais que melhorem a qualidade de vida de todos os seus habitantes.

O que é perceptível a todos, os dados do Simob desnudam e mensuram. Planejar a partir de dados e evidências deveria ser, sempre, a base de qualquer administração bem sucedida.



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