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13/10/2021 00:00

Valor Econômico| Valor Econômico

Bancos resistem a deixar de financiar combustíveis fósseis

Por Owen Walker e Stephen Morris — Financial Times, de Londres

Os bancos têm resistido em se comprometer com o plano estratégico para cortar emissões de gases-estufa a fim de alcançar uma meta líquida de emissões zero até 2050, a poucas semanas das conversações climáticas da CoP-26, marcadas para novembro em Glasgow, Escócia.

Negociadores de uma iniciativa encabeçada pelo economista Mark Carney, ex-presidente do Banco da Inglaterra (BoE), para estimular grupos financeiros a cessar o financiamento a empresas de combustíveis fósseis enfrentam dificuldades para convencer os principais bancos a concordar em deixar de custear os novos projetos de prospecção de petróleo, gás e carvão neste ano, de acordo com mensagens internas a que o “Financial Times” teve acesso. Isso se alinha à análise da Agência Internacional de Energia (AIE).

Muitos dos 59 bancos que aderiram à iniciativa de Carney preferem adotar metas derivadas de pesquisas sobre cenários do aquecimento global realizadas pelo Painel Internacional sobre Mudança Climática (IPCC, nas iniciais em inglês), um órgão científico da Organização das Nações Unidas (ONU), não diretivo, e que deixariam espaço para manter o financiamento ao setor de petróleo e gás.

A iniciativa de Carney, a Aliança Financeira de Glasgow pela Meta Líquida Zero (Gfanz, nas iniciais em inglês) foi formada em abril, atraindo apoio de quase 300 instituições financeiras, com US$ 90 trilhões em ativos.

A AIE publicou em maio sua análise, na qual delineia um caminho para a obtenção da meta líquida de emissões zero até 2050 para o enfrentamento da mudança climática.

“Ninguém está disposto a referendar [as metas] da AIE de 1,5°C [grau Celsius], disse uma fonte próxima às discussões com os bancos. “Eles acham que é um conto de fadas.”

Mais de 190 países prometeram restringir o aquecimento global a bem menos que 2°C e idealmente a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais como parte do Acordo de Paris, firmado em 2015.

A aliança Gfanz de Carney reuniu uma série de iniciativas destinadas a estimular os maiores bancos e instituições financeiras do mundo a se comprometer em alcançar a meta líquida de emissões zero até 2050 a fim de limitar o aquecimento global.

As conversações da CoP-26 vão se concentrar nas regras para concretizar as disposições do Acordo de Paris, com o papel do financiamento na mudança climática ocupando o centro das discussões.

O Gfanz divulgou um apelo à ação na segunda-feira, ao pedir aos governos do G-20 uma série de políticas fundamentais para a obtenção da meta líquida de emissões zero. Entre elas, estão o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e a redistribuição dos recursos para garantir uma transição “justa”, a proibição de centrais elétricas ininterruptas a carvão e petróleo até 2040, bem como o lançamento de uma prestação obrigatória de informações climáticas por todas as empresas até 2024 e a reforma das regulamentações financeiras mundiais voltada para incentivar o investimento verde.

“As empresas financeiras não conseguirão alcançar economias sustentáveis sozinhas - são necessárias políticas climáticas claras, confiáveis e ambiciosas dos governo do G-20”, disse Carney, o atual enviado especial da ONU para ação climática e finanças. “As próximas semanas desta década decisiva vão ajudar a determinar se evitaremos ou não a catástrofe climática.”

O grupo do Gfanz para o setor bancário, conhecido como Net Zero Banking Alliance (NZBA), que inclui HSBC, Bank of America e Santander, defende que as instituições de crédito fixem metas sobre cenários de mudança climática formulados ou pelo IPCC da ONU ou pela AIE, a organização dos países produtores de petróleo, com sede em Paris.

Embora os cenários do IPCC e da AIE tenham resultados amplamente semelhantes em termos de aquecimento global, o principal problema para os bancos é que a AIE desenvolve um plano estratégico que inclui especificamente uma proibição a novos projetos de prospecção de combustíveis fósseis a partir deste ano, enquanto o IPCC, não.

Houve discordâncias na NZBA sobre adotar ou não os cenários do IPCC ou da AIE. A Environment Programme Finance Initiative (Unep FI, nas iniciais em inglês) da ONU, que atua como secretaria da NZBA, defende a adoção do relatório do IPCC, em parte por ser uma organização-irmã no âmbito das Nações Unidas.

“Os cenários do IPCC são altamente rigorosos, ambiciosos e fundamentados na ciência - são a obra de referência mundial padrão, amplamente usada por formuladores de políticas públicas, cientistas e outros especialistas, e servem de base para o processo da CoP”, disse Remco Fischer, dirigente de mudança climática da Unep FI.

“Não houve discordância no âmbito da NZBA sobre quais são os cenários a ser usados.”

No entanto, e-mails vazados mostraram que assessores do Gfanz pressionaram pela adoção, pelos bancos, do plano estratégico da AIE, mas encontraram resistência deles.

“O cenário do IPCC permite que os bancos continuem a financiar planos de prospecção”, disse uma pessoa envolvida nas conversações.

“Essa é a fraude científica - a ideia de que se pode continuar a expandir a produção e o uso de combustíveis fósseis, mas dizendo ao mundo que se adotou a meta líquida de emissões zero.”

Os bancos estão sendo cada vez mais pressionados por clientes, investidores e políticos por financiar o setor de carvão, petróleo e gás. Foram também acusados por ativistas e alguns acionistas de serem “verdes da boca para fora” por não cumprirem suas declarações públicas sobre a necessidade de restringir as emissões de gases-estufa.

Embora bancos como Standard Chartered, HSBC e Barclays tenham assumido compromissos públicos de alcançar metas líquidas de emissões zero até 2050, ainda não deixaram de financiar empresas de combustíveis fósseis.



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