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30/08/2023 00:00

O Estado de SP| O Estado de SP

Com a eletrificação, surge um novo mercado - por Flávia Consoni

O aumento na incidência de eventos climáticos extremos, como temperaturas recorde e tempestades, aponta para a intensificação no cenário de mudanças no clima do planeta, cuja mola propulsora, de acordo com projeções recentes do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2022), resulta da intensificação na emissão de gases de efeito estufa na atmosfera.

É necessário que medidas sejam tomadas para reduzir essas emissões e atacar a emergência climática. Várias rotas tecnológicas têm sido propostas para atingir esse objetivo – uma delas é a eletrificação dos meios de transporte, que tem avançado de maneira rápida, particularmente, nos países mais desenvolvidos.

Para além do aspecto da descarbonização, que se soma à necessidade de melhoria na qualidade do ar nos centros urbanos, a eletrificação veicular também deve ser considerada por sua vertente econômica e de competitividade, uma vez que se prevê uma grande reconfiguração das cadeias econômicas centradas no veículo com motor a combustão, englobando montadoras, empresas de autopeças, concessionárias e postos de combustíveis.

NOVOS PROTAGONISTAS.

O avanço na eletrificação pode representar uma ameaça à sobrevivência de negócios que constituem a indústria tradicional, que vão do fornecimento de combustíveis fósseis até componentes que deixarão de ser fabricados, como motores de combustão, escapamentos, lubrificantes e tanques de combustível, entre outros.

Por outro lado, todo um novo ecossistema passa a ganhar protagonismo, configurando novas dinâmicas e interfaces na produção de veículos. É o caso dos setores elétrico, que fornece a energia para motores, e químico e da mineração, envolvidos com a produção de baterias.

Há também um emaranhado de novas atividades ligadas à infraestrutura de recarga, que incluem os eletropostos (da concepção à produção) e a operação do carregamento, com a emergência de atores como o CPO (Charge Point Operator), responsável pela instalação, manutenção e operação dos pontos de recarga; os MSPs (Mobility Services Providers), responsáveis pela interação entre usuário e sistema de recarga e gestão do pagamento; e o Backend Provider, que fornece as tecnologias necessárias para operar as redes de comunicação, otimização e armazenamento dos dados ligados à infraestrutura de recarga.

A telecomunicação, com o provimento de tecnologias 5G, é outra demanda necessária para que esse ecossistema funcione de forma a viabilizar a interoperabilidade nos serviços de recarga – ou seja, que garanta uma eficiente comunicação entre veículo e eletroposto.

Outros aspectos, menos tangíveis, também são mobilizados, tais como os aparatos regulatório e de certificação, importantes para organizar as novas “regras do jogo”, dar direcionamento e confiança ao mercado e ao usuário da mobilidade elétrica. Da mesma forma, requer atenção por parte do setor de ensino, em função da necessidade de formação de profissionais com qualificações diferenciadas.

OPORTUNIDADES.

Surge, portanto, a necessidade de novos modelos de negócio – em particular, em relação ao uso e à aquisição dos veículos elétricos, que ainda possuem valor de venda bastante elevado.

Serviços de compartilhamento e de assinaturas são exemplos de alternativas que atraem os consumidores. Há também a possibilidade da comercialização apartada de veículo e bateria – essa prática tem ocorrido com mais frequência em veículos pesados, já que a bateria é o ativo mais caro em um modal elétrico. Por fim, busca-se otimizar a segunda vida das baterias e, assim, obter mais valor antes de sua reciclagem final.

OUTRO CICLO. O ecossistema da mobilidade elétrica altera o mercado como o conhecemos: trata-se de uma espiral dinâmica que articula, reposiciona e combina dimensões políticas, econômicas, financeiras, sociais, culturais, de novos hábitos de consumo e práticas entre usuários em torno da consolidação dessa nova tecnologia que emerge.

Para acompanhar a evolução e consolidação desse novo ecossistema, vale recordar as reflexões do austríaco Joseph Schumpeter, que há quase um século, no seu clássico Teoria do Desenvolvimento Econômico*, definiu destruição criativa como aquela que ocorre quando inovações (tecnológicas, de mercado, organizacionais) alteram o setor, inaugurando um novo ciclo de desenvolvimento que ocupa espaços antes dominados por tecnologias ou sistemas tradicionais. A destruição criativa é, portanto, a essência da dinâmica do capitalismo.

Nesse contexto, é a atuação de empreendedores inovadores que “desestrutura criativamente” o mercado e sustenta um novo crescimento econômico, apoiado nas novas tecnologias e inovações.

Como ensinamento, é fundamental atentar-se aos avanços da mobilidade elétrica, considerando as ameaças aos negócios tradicionais que acompanham esse movimento, assim como as oportunidades que se abrem, com a consequente destruição, mas, simultaneamente, a geração de postos de trabalho e renda.

Flávia Consoni - Professora e coordenadora do curso de Extensão em Mobilidade Elétrica, da Unicamp



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