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01/08/2019 00:00

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Narrativa para justificar o afrouxamento das regras de trânsito




Durante muito tempo boa parte da mídia adotou o termo ‘vilão’ para definir o papel do radar no imaginário do motorista brasileiro. Segundo os dicionários, vilão representa algo (ou alguém) ruim, capaz de fazer mal aos outros.

O resultado do radar, como todos sabem, é registrar o ato de motoristas em flagrante desrespeito à lei. Como resultado, fere os bolsos desses condutores, cuja expressiva maioria, e as estatísticas demonstram, é composta por contumazes infratores. Estes, ao se alçarem à condição de “vítimas”, cometem seus crimes sem punições severas, sem relação de reciprocidade com a extensão do mal perpetrado, a não ser a famigerada multa.

Julgando-se a voz de todos (vox populi), falam em nome de uma maioria que não representam. Esse antagonismo entre a pretensa voz de todos e a autoridade pública experimentou nos últimos anos um relacionamento povoado por acaloradas discussões. De um lado, o motorista querendo escapar da punição pecuniária, e do outro a autoridade cumprindo seu papel de garantir a aplicação da lei, feita exatamente para proteger a vida de todos.

A “voz do povo”, que neste caso poderia ser mais bem descrita como a “vox pauci” (a voz de poucos, num latim macarrônico), esteve sempre muito distante de ser a Vox Dei, a voz de Deus. Os órgãos públicos de trânsito sempre ganharam essa queda de braço. Isso, no entanto, tem mudado perigosamente nos últimos tempos, se tornando mais uma jabuticaba brasileira no cenário internacional. Enquanto na maioria dos países conhecidos o que se vê é um crescente aperto na conduta e comportamento de motoristas, como forma já comprovada de redução de acidentes e de gastos públicos, no Brasil passamos a trilhar o caminho na contramão.

A mudança é recente, ao mesmo tempo em que veloz. Começou quando alguns candidatos descobriram o potencial eleitoral de não se atender a algumas das mais tradicionais e comezinhas evidências.

Na sequência, passou-se à construção de uma narrativa que justificasse (sem explicar como) o motivo do afrouxamento das regras de trânsito. Passou-se a compartimentar aquilo que as evidências já demonstraram ser inseparável, ao afirmar que o afrouxamento na fiscalização pode ser compensado com “mais educação”.

O que até então era apenas um debate localizado, hoje, percebemos, se tornou uma vontade política poderosa.

As últimas decisões anunciadas visando alterar o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) agregaram a esta nova narrativa a tese de que é preciso “desburocratizar” o trânsito, reduzir “custos” dos motoristas, acabar com “indústrias” que faturam sem cumprir seu papel precípuo que deveria ser o de “educar”. A mais recente declaração do presidente da República coloca em dúvida a necessidade de aulas para que a pessoa possa obter a licença para dirigir.

Melhorar e modernizar o CTB, processo cuidadoso e que necessariamente passa por uma série de consultas e análises, está sendo deixado de lado. O sentido destrutivo tomou seu lugar, e tudo está sendo feito ao arrepio da experiência e da ciência, dos exemplos vivenciados não só aqui como em muitas outras cidades mundiais.

A pressa em atender à voz de poucos está tomando perigosamente o lugar da construção cautelosa de um trânsito mais seguro. A voz da sensatez e da defesa da vida precisa prevalecer.



Comentários

Ednei Corvalão - 20/08/2019 07:53:50
Estamos voltando a era da bárbarie... tempos de grandes atrocidades nos aguardam num futuro bem próximo, onde o "abusar" das normas e das regras se tornaram algo frequente em nosso dia-a-dia, premiada pela impunidade das ordas barbaras que invadiram nossas rodovias. É uma forma dramática de reduzir a população no Brasil!

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