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04/09/2019 00:00

Helcio Raymundo

Tecnologia: uma visão crítica e um ponto de vista

Tenho sido questionado por meus alunos, devido ao que eles acham que é uma crítica muito severa contra a tecnologia. Várias vezes durante as aulas chamo a atenção deles, dizendo que eles devem saber o que é (realmente) a tecnologia. Por que eu faço isso? Primeiro de tudo, porque parece existir um mal-entendido sobre a diferença entre tecnologia e técnica. A técnica, como um substantivo, é a maneira de realizar uma tarefa particular, enquanto (contemporaneamente) a tecnologia, também como substantivo, se refere à métodos, sistemas e dispositivos que são o resultado do conhecimento científico que estão sendo usados para fins práticos. O problema é que houve uma mudança significativa no significado da tecnologia nos últimos 200 anos. Na década de 1930, por exemplo, fruto do desenvolvimento industrial alemão, ‘tecnologia’ se referia não apenas ao estudo das artes industriais, mas às próprias artes industriais (1) . Hoje em dia, mesmo como substantivo, o termo tecnologia também é usado como adjetivo, em vez de tecnológico que seria a escolha certa. Em poucas palavras, gostaria de dizer que o conhecimento ou estudo da técnica (o significado original de tecnologia) deu lugar a um conceito mais complexo, quase um termo fetiche, na interpretação de Umberto Eco, onde as coisas têm mais ou menos tecnologia, como ‘tecnologia embarcada’, ou tal coisa carrega uma ‘tecnologia de ponta’, por exemplo (2).

Meu segundo ponto de atenção, de acordo com Andrew Feenberg (3) (remonado especilista em filosofia da tecnologia), é referido a duas concepções opostas ou pré-concepções: (i) acredita-se amplamente que a sociedade tecnológica é condenada à gestão autoritária, trabalho sem sentido, e consumo igualmente irracional; e (ii), do outro lado, os críticos sociais afirmam que a racionalidade técnica e os valores humanos afirmam a alma do homem moderno.

Estes dois clichês exortam a reconceituação da relação entre tecnologia, racionalidade e democracia.

Devemos lutar pela possibilidade de uma reforma verdadeiramente radical da nossa sociedade. Caso contrário, seremos condenados ao autismo irresponsável ou a uma utopia interminável. Como diz Feenberg, "defendo que a degradação do trabalho, da educação e do meio ambiente está enraizada não em tecnologia, mas nos valores antidemocráticos que regem o desenvolvimento tecnológico". Feenberg diz mais: "as propostas que ignoram este fato falharão, incluindo noções populares como um estilo de vida simplificado ou renovação espiritual. Desejável e nobres como esses objetivos podem ser, nenhum progresso fundamental pode ocorrer em uma sociedade que sacrifica milhões de indivíduos à produção e descapacita seus membros em todos os aspectos da vida social, desde o lazer até a educação, atendimento médico e planejamento urbano."

Ainda assim, de acordo com Feenberg, "uma boa sociedade deve ampliar a liberdade pessoal de seus membros, permitindo-lhes participar eficazmente de uma gama crescente de atividades públicas, e no mais alto nível, pois a vida pública envolve escolhas sobre o que significa ser um ser humano. Hoje, essas escolhas são cada vez mais mediadas por decisões técnicas. O que os seres humanos são e se tornarão é decidido na forma das nossas possibilidades, não menos do que pela ação de ‘estadistas’ e de movimentos políticos. O ‘projeto’ da tecnologia é, portanto, uma decisão ontológica repleta de consequências políticas. A exclusão da grande maioria da participação nesta decisão é profundamente antidemocrática."

Por último, a tecnologia não arruinará nossas vidas, mas não é a panaceia, simplesmente porque é um meio, e não um fim (em si mesmo). Sabemos que a tecnologia parece empurrar tudo para a direção na qual seus ‘donos’ vão ganhar mais dinheiro. No transporte de passageiros, por exemplo, a ascensão da mobilidade compartilhada e os veículos autônomos estão moldando uma nova era de autonomia acessível, sustentável ou não, e por extensão, com prós e contras. Não é a tecnologia que conduz esse caminho, mas nossas necessidades e desejos, independentemente de termos ou não discernimento para compreender isso e de termos (ou não) capacidade (política) para influenciar o rumo das coisas. Se não agirmos (corretamente), os ‘donos’ da tecnologia, o poder econômico, irão impor o que quiserem, como de costume.

É uma questão de consciência, consciência política, que depende em um sentido mais amplo de nossos valores, mas principalmente de nosso conhecimento da história (para aprender como as coisas acontecem) e da filosofia (para aprender porque as coisas acontecem). Se eu pudesse aconselhar os meus alunos, eu recomendaria a eles que estudassem muito, discutissem muito, vivessem o mais intensamente possível, viajassem, fizessem tudo o que desejassem fazer, mas principalmente usassem a história e a filosofia como uma ferramenta para impulsionar o conhecimento. E pediria ainda que nunca acreditassem nessa 'bobagem', típica da nossa suposta sociedade moderna de ‘tecnificar’ a política e ‘politizar’ a técnica.

Além disso, meus caros alunos, nunca se esqueçam: a compreensão é a chave de tudo!

Helcio Raymundo – Engenheiro, Mestre em Transportes e Consultor. Membro da ANTP

Notas:

(1)    SCHATZBERG, Eric. ‘Technik’ comes to America: changing meanings of ‘technology’ before 1930. Technology and Culture, v.47, n. 3, p. 486-512, 2006.

(2)    ECO, Umberto. Apocalittici e integrati: comunicazioni di massa e teorie della cultura di massa. Giunti, 2011.

(3)    FEENBERG, Andrew. Transforming technology: A critical theory revisited. Oxford University Press, 2002.



Comentários

Eduardo Vasconcellos - 27/09/2019 09:30:39
Ótimo texto, trazendo um tema muito importante para "renovar" nossos raciocínios e escapar de análises muito limitadas que estão sempre sendo feitas.

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