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13/08/2019 00:00

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'O centro é o mais importante território de disputa em SP'

Desde os anos 1990, capitaneado pelo governo do Estado ou pela prefeitura, o centro de São Paulo passa por um movimento de revitalização que se dá em diversos capítulos, ou com vários nomes de projetos, que culminam no recorrente histórico de intervenções, ou tentativas, para reconfigurar a região. As mais recentes são parcerias público-privadas habitacionais na Luz e o Triângulo SP.

Entretanto, conforme Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e coordenadora do LabCidade, iniciativa que estuda o espaço público e o direito à cidade, a ideia de revitalizar pressupõe que não há vida no local. "Mas se você observar São Paulo de perto, qualquer um nota que há abundância de vida no centro", afirma a urbanista que também integra o Observatório das Remoções, entidade que estuda desapropriações. Confira os melhores trechos da entrevista que a professora concedeu ao Destak.

Como era o centro antes do anos 1990?

Desde o final dos anos 1960, o centro deixa de ser o polo das classes médias e altas, que migram do centro em direção à av. Paulista, Jardins, Faria Lima, Itaim, Marginal de Pinheiros, tanto do ponto de vista de restaurantes, serviços e consumo das elites quanto de uma parte da área destinada à habitação. Isso também foi fruto da política urbana que, desde que implantou o metrô e o sistema integrado de ônibus, transformou o centro em um grande terminal intermodal de transporte coletivo, usado historicamente pela população de renda mais baixa.

Então por que reeditar a cada gestão projetos de revitalização?

As várias propostas têm a ver com tentar devolver o centro novamente às classes média e alta. As primeiras estratégias foram a implantação de equipamentos culturais, como a Sala São Paulo e a Pinacoteca, imaginando que isso atrairia empreendimentos imobiliários de alta renda, mas houve resistência aos projetos, pois há existências que se antepuseram à transformação. Uma delas foi a dos dois maiores PIBs comerciais de São Paulo, a região da 25 de Março e da Santa Ifigênia, porque a vitalidade econômica é tão grande manteve a área como é.

Então, a retomanda seria mais uma expansão?

Abrir frente de expansão para o centro e provocar a saída da população mais pobre é um processo clássico de retomada de pedaços da cidade por classes altas. Implica preços elevados de imóveis e aluguéis, o que expulsa economicamente a população que não poder arcar com os valores. Há dois processos em curso no centro: um, o aumento da demanda de moradia com mais renda no centro, comprovada pelos lançamentos imobiliários recentes e, dois, remoções, ou seja, na marra, como ocorre nos Campos Elíseos, pega-se um quarteirão e ele é demolido sem grande preocupação para onde vai quem lá habita.

Existem outros fatores que contribuem para a transformação?

Não dá para fazer uma narrativa em que a elite vai tirar todo mundo só para privilegiar alguém para ganhar dinheiro. Há vários movimentos que convergem para a mudança. Há um contexto geral em que há menos apoio à habitações de cunho social do que houve em outros momentos. O que sempre denunciamos é que não é possível fazer transformações desse tipo sem proteger e defender os direitos de quem está ali naquele território porque a questão é não haver alternativa. As intervenções foram impostas sem diálogo com os moradores e, muitas vezes, com quem realiza a atividade econômica.

O contexto transmite a impressão de constate disputa.

O centro é um dos mais importantes territórios de disputa nesse momento da cidade. É uma batalha por projetos e por formas de existir com consequências. Houve uma multiplicação enorme de pessoas morando em condições precárias, cortiços e de edifícios vazios, pois são prédios comerciais e residenciais que se esvaziaram em função da migração da centralidade durante décadas e, diante da demanda de moradia absolutamente não satisfeita pelas políticas públicas, as pessoas começaram a se organizar para ocupar os edifícios desde o final do século passado para terem habitação digna.



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